
Força do crack escraviza usuários e seus familiares
O crack eleva a temperatura corporal, podendo levar o usuário a ter um acidente vascular cerebral
“O que eu mais desejo é parar com isso, mas a dependência consome todas as minhas forças. Virei uma pessoa infeliz, joguei quatro anos de medicina para o alto, contribui para meu pai enfartar e quase morrer, perdi uma moto, carro, jóias, amigos, familiares e luto agora para tentar não me perder”. Rivaldo, 24 anos, morador de um bairro nobre de Campos resume o mal que o crack e a cocaína fazem na vida dele. Na série de trabalho jornalístico que desenvolve sobre o assunto, a Agência Brasil (ABr) traça as fases do vício, numa linha em que o começo é a maconha, depois a cocaína, até chegar ao crack. Rivaldo destoa: “já usei as outras, nenhuma delas me arruinou tanto como o crack. Tá barra pra sair, minha família e alguns amigos dão apoio, tô me esforçando e com muita fé em Deus”, revela.Drama para sair - Usuários de crack se sentem escravizados pela droga. A frase, título de mais um trabalho desenvolvido pela equipe da Agência Brasil, resume o drama da maioria dos usuários de drogas ouvidos pela reportagem de O Diário. E o reflexo é tão forte nos respectivos familiares, que tem levado muitos deles principalmente à depressão e, até, à morte. “Ninguém se sente bem ao ver um filho ou irmão envolvido nessa desgraça”, lamenta a mãe de Rivaldo. O começo do vício é sempre parecido, diz a matéria da ABr, cuja íntegra – mesclada com situações apuradas por O Diário – vai adiante. Primeiro é o consumo de maconha, depois vem a cocaína. O crack é o próximo passo. Ele não escolhe cor, gênero, classe social ou religião. Com poder avassalador, invadiu a sociedade, quebrou regras, transpôs limites e escravizou milhares de pessoas.
Mesmos traços - Os quadros com traços de causas e efeitos são iguais ou semelhantes em qualquer parte do planeta e na série de reportagens que O Diário publica, muitos deles são citados com prioridade para os fatos (visando alertar o quanto são nocivas as drogas), provavelmente com nomes de personagens e cidades apenas ilustrativos. O caso de Marcela, 30 anos, é um deles. Ela usou crack por seis meses e é um exemplo de que há pessoas que acreditam ser mais fortes que o vício. “Quando eu comecei, na primeira noite, pensei que fosse ter controle sobre isso, como eu tinha sobre a cocaína. Mas vi que, na segunda semana, já tinha perdido completamente o domínio, porque fazia isso 24 horas por dia”, diz, cobvicta de que se iludiu.
Alucinação e sintomas de formigamento pelo corpo

Psicóloga Regina Rangel relata danos físicos, psicológicos e sociais.
A psicóloga Regina Rangel do Centro Atenção Psicosocial (Caps), especialista em tratamento com dependentes químicos, em Campos, disse que o usuário do crack pode sofrer danos físicos, psicológicos e sociais. Ela afirmou que o uso diário da droga entre seis meses e um ano, a pessoa corre mais risco de morte. Regina explica que as primeiras reações são sensações físicas, alucinação e sintomas de formigamento pelo corpo, podendo desenvolver a síndrome do pânico. “A pessoa emagrece e em muitos casos a solução é internar o paciente”, disse a psicóloga, informando que, na maioria dos casos, a pessoa necessita do entorpecente para o próprio comando. “Com a falta da droga, acontece a abstinência”, afirmou.
Vários estágios - Regina explicou que para a pessoa chegar à dependência de um produto químico, ela passa por vários estágios: usuário experimental, ocasional (apenas em festas, por exemplo), habitual (social), abusivo (mais grave) e dependente. “Mas o crack logo na primeira vez pode tornar a pessoa em um usuário dependente, pois o seu efeito é muito rápido, o que acaba àquele usuário comprando sempre”, disse. A especialista pontuou ainda as perdas sociais. “Para angariar dinheiro, essas pessoas e vendem as próprias roupas, calçados, pertences pessoais, roubam objetos de casa, de terceiros, se envolvem com o tráfico, se distancia da família, se envolvendo, também, com pessoas que fazem o uso da mesma droga”. Pedindo ajuda em um centro de reintegração social, Regina detalha que a pessoa passa por uma avaliação médica e se esse usuário estiver em estado clínico de intoxicação, o mesmo é encaminhado para uma avaliação médica em um hospital de emergência. “Depois passa por um tratamento, aprendendo a lidar com a dependência química, reformulando o seu comportamento e ser reintegrado socialmente”, concluiu.
“Minha filha era religiosa. De repente passou a usar porcarias”
Em Campos, a situação não é diferente das demais cidades brasileiras. Em uma delas, Flávia, 22 anos, desde terça-feira desapareceu de uma clínica na região, de onde havia fugido pela quarta vez. A jovem está no vício há três anos e até sexo em troca de uma pedra de crack de R$ 20 já fez, segundo afirma a mãe dela, uma senhora de classe média que acaba de vender uma casa em Santa Clara para investir no tratamento da filha.“Minha menina era uma pessoa estudiosa, alegre, feliz e religiosa. De repente passou a usar essas porcarias. Começou dentro da minha própria casa, numa festa de aniversário do irmão”. A mãe desabafa: “passamos a evitar dar dinheiro a ela, mas foi pior, porque Flavinha até roupas dela e nossas passou a vender para comprar a droga. O sofrimento é um absurdo e lamento por não estarmos recebendo apoio de muitos daqueles que frequentavam nossa casa nos churrascos de finais de semana”.
Familiares podem desenvolver dependência
Custo baixo da droga atrai, a cada ano, milhares de usuários
Os familiares precisam ser fortes para lidar com a dependência química de seus parentes. Muitas das vezes, sentem-se culpados e têm medo. Quando agüentam tudo, do furto dentro da própria casa às palavras e ações violentas, e abrem mão da própria vida para cuidar do usuário de drogas. Os pais também podem desenvolver problemas psicológicos.Os dependentes químicos têm a doença da adicção, termo em latim que significa “escravo de”. A família dos ‘adictos’, como são chamados os usuários, podem desenvolver a co-dependência. De acordo com a psicóloga Neliane Figlie, o co-dependente não tem controle sobre a própria atitude em relação ao parente dependente químico. A mãe de um usuário conta que o filho, depois de consumir a droga, era tão agressivo que chegou a provocar um aborto na ex-esposa. “Ele tinha muito ciúme dela. Um dia ele chegou muito drogado, bateu nela que estava grávida e matou a criança”, relata. Depois do episódio, ele ficou sem dar notícias por três anos. Ela revela que quando o rapaz voltou para casa, enfrentou outro problema: o preconceito da família. “Os familiares não ajudam. Cheguei à casa um dia desses, e ele estava jogado na beira do muro, com febre, tremendo, vomitou. Se não fosse eu, naquela noite, ele tinha morrido”, lembra Ilda. “Foi nesse dia que ele pediu para sair da rua e ir para uma casa de recuperação”.
Qual a solução?
De acordo com a Agência Brasil, a internação é, para muitos pais, uma tentativa de resolver o problema. Porém, nem sempre a saída para o dependente. José Antônio, 46 anos, e Daiane, 35, pais de um menino que se envolveu com drogas aos 15 anos em Planaltina de Goiás, também enfrentaram essa situação. “Procuramos ajuda, internamos numa clínica perto de Ceilândia. Ele ficou uns dois meses e fugiu da clínica”.
José Antônio acredita que o filho, hoje com 18 anos, envolveu-se com o crack por causa dos amigos. “Creio que foi má companhia. Depois que ele entrou nessa, eu soube que a maioria dos amigos dele mexia com isso”. O sofrimento dos pais acabou levando o adolescente a pedir ajuda. “Para uma mãe é difícil. Cinco noites sem dormir, do serviço para casa, sem comer. Não sabia onde ele estava, não sabia se ele estava bem, se estava dormindo, o que estava fazendo”.
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